Humanização e ensino pré-graduado na Faculdade de Medicina
José Carlos Areias*

A Humanização é uma aprendizagem contínua na construção de pessoas sadias de corpo e espírito. Deseja-se que lhes permita auto-estima e capacidade de envolver outros no espaço social que frequentam, num ambiente saudável onde a verdade, liberdade e responsabilidade ocupam lugar. Será este conceito importante no ensino pré-graduado da medicina? Porquê nesta fase da vida?
Em primeiro lugar, falar da necessidade de humanizar na aprendizagem de quem vai exercer uma actividade com pessoas que necessitam de outros, para a preservação da sua saúde física e mental, significa que a sociedade caminha para a desumanização.
De facto, parece ser este o caminho escolhido por uma sociedade rendida ao desenvolvimento tecnológico, na procura de bem estar físico e económico de seres cada vez mais dependentes desse bem estar, esquecendo o desenvolvimento espiritual, aquilo que, de facto, distingue o ser humano de outros animais.
Presumo que o ser humano tratado como corpo e espírito poderá libertar-se da prisão da sociedade que o trata como objecto, como meio necessário para a construção e preservação do poder daqueles que, prometendo o progresso e bem estar, mais não pensam do que na satisfação dos seus egoísmos e regalias.
Devem os profissionais de saúde ser promotores e defensores da vida humana, considerando-a o mais importante direito de cada um.
Cada pessoa é única, potenciada por factores genéticos adquiridos à nascença, e por factores culturais e educacionais adquiridos desde cedo, na relação entre pais e filhos, e, mais tarde, entre os diferentes membros da família. Aqui começa a construção da humanização, continuada no grupo de amigos, na escola, nas pequenas agremiações. Preencher assim a vida deveria ser um direito inalienável e, também, um dever pessoal numa sociedade organizada para o desenvolvimento intelectual e cultural do seu povo, respeitando cada um como fim e não como meio de desenvolvimento económico de poucos, e aniquilação humana de quase todos.
Com o objectivo da conquista e conservação do poder, o Estado tem vindo a apoderar-se das funções que no passado pertenceram às famílias, reduzindo a sua influência à ocupação física de espaços, desprovidos de afectividade, liberdade e responsabilidade.
Por outro lado, a concentração cada vez maior de pessoas em grandes cidades, isolou-as, cavou barreiras, impedindo a troca afectiva entre vizinhos, a solidariedade natural que dantes os ajudava.
Foi assim necessário criar a solidariedade institucionalizada, dependente do Estado, sorvedouro de dinheiros que, noutras condições, serviriam para melhorar o bem estar físico e espiritual de muitos.
É com estes conceitos que surgem perguntas como a que origina este texto: será necessário o ensino da humanização numa faculdade de medicina?
Entendo que humanizar no currículo pré- graduado de medicina é um processo em contínuo, alicerçado em valores adquiridos na família e na sociedade, numa relação sadia entre docentes e discentes, cabendo a todos o papel de promotor e receptor de regras e conceitos. Haver currículo próprio com avaliação de conhecimentos e conceitos, não parece necessário numa sociedade equilibrada emocionalmente, capaz de promover o ensino em ambiente de respeito pelos valores humanos fundamentais.
Uma proposta destas obriga-me, no entanto, a considerar alguns aspectos, para os quais não estou seguro da sua exequibilidade. Será a pessoa o objectivo da política dos cuidados de saúde? Pretende-se ajudar e tratar doentes, considerando a vida humana o fundamento de todos os valores, ou, simplificando, pretende-se unicamente identificar e tratar doenças?
Nos últimos tempos, temos assistido a várias intervenções que visam a sustentabilidade dos serviços de saúde. Discutem-se parâmetros importantes na gestão das unidades de saúde, desde a complexidade das doenças ao número de dias de internamento, promovendo verdadeiros desafios à concentração dos profissionais de saúde, que, provavelmente, pensaram ter dedicado a sua vida e competência profissional aos doentes. Destes, raramente se fala nessas reuniões, excepto, e porque prejudica as estatísticas, para dizer que alguns passam dias internados em instituições hospitalares sem nunca terem visto o médico, o que, de facto, representa um prejuízo. É óbvio que prefiro falar no prejuízo do abandono do doente, da incapacidade dos profissionais de saúde ou das administrações institucionais compreenderem os direitos éticos dos doentes, da falta de diálogo e partilha da ansiedade que esses doentes não têm direito de exprimir.
É preciso não ter a tentação de, unicamente, instalar um sistema de gestão eficaz, ignorando o doente, ou convencendo-o que o seu bem estar estará garantido com o progresso tecnológico e a saúde financeira do estabelecimento de saúde.
Muitos destes aspectos acontecem com frequência, e, seguramente, levam-nos a pensar que esta desumanização exige repensar o problema, quer nas instituições de saúde, quer nas escolas e faculdades. Há que voltar atrás, perceber os erros que se fizeram na perda da liberdade do ser humano, em favor de uma sociedade ávida de poder e ambição, fechada nos benefícios de alguns, criadora de relações humanas cada vez mais centradas na desertificação da afectividade e da solidariedade.
A vida tem regras comuns a todos e outras específicas do papel que cada um ocupa na sociedade. Nas relações de saúde ou nas faculdades, essas regras são o património de cada um, indispensáveis no relacionamento recíproco.
* Professor Catedrático de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Director do Serviço de Cardiologia Pediátrica do Hospital de S. João. O Prof. José Carlos Areias é presidente da Convenção do Movimento para a Democracia Directa – DD.




