Qua., 10 de Março de 2010
Página de entrada de Blogue do DD

A afirmação do senso-comum

O amigo F Barros escreveu “O Colete de Forças” e embora eu esteja de todo acordo com ele, também reconheço que a mudança a que ele se refere é de uma complexidade extrema. E, paradoxalmente, é complexa porque é simples: trata-se apenas de restaurar o senso-comum na política como em todas as áreas. É preciso convencer as pessoas do valor do senso-comum e da objectividade empírica da nossa realidade. A nossa liberdade de expressão não tira o pão ao trabalhador mas tira o sono ao tirano.

De nada adiantam as revoluções, mesmo no sentido a que o F Barros se referiu, se o cidadão comum não for o dono e senhor da sua realidade e partilhá-la livremente em comunidade. O que se passa hoje é que a elite, do alto do seu palanque, diz ao cidadão qual deve ser a sua [deste] realidade e impõe o estereotipo da realidade racionalizado por ela [pela elite] ― não só nas “engenharias sociais” [que são uma forma reconvertida, travestida e mais sofisticada da velha opressão ideológica marxista sobre o indivíduo] como em praticamente todas as áreas da actividade da sociedade.

Depois da queda do formidável Estado marxista e opressor, temos desta vez a ameaça crescente do Estado-providência que, através da infantilização do cidadão e da sua irresponsabilização, trabalha para um novo tipo de opressão estatista ainda mais sofisticado através da criação de dependências múltiplas em relação ao super-estado e a vários níveis, sejam elas psicológicas, económicas, culturais, ou outras.

À medida em que o cidadão se vai deixando cair na rede das múltiplas dependências de um Estado que cresce em poder [seja o nosso, seja o de Bruxelas], vai paulatinamente perdendo a sua liberdade.

A maior ameaça ao crescimento desse super-estado que pretende infantilizar e desresponsabilizar o cidadão para lhe tomar a liberdade, tendo como objectivo transformá-lo numa marioneta, é a afirmação pública e permanente do senso-comum inerente à realidade e à experiência humanas por parte de cada cidadão, e compartilhar essas experiências e realidades individuais com toda a comunidade. E é isto que é a democracia directa: a liberdade que não prejudica o operário mas incomoda os novos aprendizes de ditador.

Tags: , , ,

January 20th, 2010 | O.Braga



4 Comentários to “A afirmação do senso-comum”

  1. O paradigma da democracia directa é a aplicação à política da revolução trecnológica. A democracia representativa pode estrebuchar, mas acabará por sucumbir à necessidade de verdadeira eleição dos candidatos, à consulta popular, à transparência e à prestação de contas.

  2. Segundo Eric Voegelin (em “Nova ciência da política”, e eu estou de acordo), a articulação da representatividade política em relação à sociedade, exerce-se em três níveis fundamentais: o primeiro, a representatividade no sentido constitucional ou elementar, que tem a ver com os mecanismos próprios da democracia representativa tradicional; o segundo, a representatividade no sentido existencial, que adiciona ao puro mecanismo de articulação representativa, e conforme com a constituição, a exigência da política em seguir a ideia directriz que a sociedade e o povo esperam da liderança política, para que assim se realize a ideia da instituição política; e o terceiro nível, o de uma relação através da qual a sociedade se torna representativa de algo para além dela própria, ou seja, de uma realidade transcendente.

    O terceiro nível não existe nas sociedades modernas, com excepção de alguns países, como os Estados Unidos.

    O segundo nível vai sendo eliminado através da construção presentista de um leviatão europeu que vai retirando paulatinamente à sociedade portuguesa a sua ideia de existência enquanto país e entidade sócio-cultural.

    O primeiro nível é o que ainda nos resta, mas está ameaçado.

    Portanto, só nos resta o primeiro nível, e tentar não só mantê-lo, como aprofundá-lo. Os meios tecnológicos, per si, podem não ser suficientes para o aprofundamento da democracia, porque esta depende sempre da participação do povo. E sem o segundo nível de articulação da política à sociedade através da representatividade no sentido existencial, os próprios meios tecnológicos correm o risco de passar a fazer parte exclusiva do primeiro nível de articulação política (como simples instrumentos de articulação, como é também a própria constituição), desligados das outras exigências da representatividade política.

  3. A tecnologia não resolve por si. Mas cria as condições para a mudança.

  4. Certo. Mas precisamos também, e pelo menos, do sentido existencial na nossa sociedade — mesmo prescindindo do sentido transcendente ou cosmológico que ordena a sociedade humana desde que esta existe.

    É preciso que as pessoas entendam de uma vez por todas que não é possível mudar a ordem do ser (a essência do ser humano).

Comente aqui