Qui., 11 de Março de 2010

Arquivo da categoria ‘Cultura’

O circuito fechado da democracia representativa exclusivista

Tuesday, February 9th, 2010

Os acontecimentos recentes relatados na imprensa sobre o provável envolvimento directo do primeiro-ministro em manobras de concentração manipuladora de órgãos da comunicação social, vêm dar razão ― se é que ainda restavam dúvidas ― a quem defende a instauração de mecanismos de democracia directa.

Desde logo porque a existência desses mecanismos de democracia directa seriam um meio de dissuasão política para eventuais atentados ao Estado de Direito a que assistimos; e depois porque esses mecanismos da democracia directa teriam a virtualidade de eliminar os resquícios culturais e políticos herdados dos totalitarismos do século XX, segundo os quais o líder político à frente do Estado é ― sempre e a todo o momento ― o resultado do acordo entre a vontade objectiva do povo e a convicção subjectiva de cada um dos membros do povo.

As eleições periódicas para o Poder representativo transformam-se, assim, numa espécie de plebiscito recorrente que é uma profissão de fé a favor de um líder (ou de uma liderança política elitista, colectiva e/ou ideológica), e não a manifestação de uma vontade própria.

Estes vícios de forma do actual Estado de Direito alimentam-se a si próprios, em circuito fechado, distanciando o cidadão das decisões que o afectam no dia-a-dia, e constituindo-se como uma tentação sistemática da liderança política para violar as regras do Estado de Direito que se invoca precisamente para se estabelecer a impunidade jurídica de quem as viola.

A afirmação do senso-comum

Wednesday, January 20th, 2010

O amigo F Barros escreveu “O Colete de Forças” e embora eu esteja de todo acordo com ele, também reconheço que a mudança a que ele se refere é de uma complexidade extrema. E, paradoxalmente, é complexa porque é simples: trata-se apenas de restaurar o senso-comum na política como em todas as áreas. É preciso convencer as pessoas do valor do senso-comum e da objectividade empírica da nossa realidade. A nossa liberdade de expressão não tira o pão ao trabalhador mas tira o sono ao tirano.

De nada adiantam as revoluções, mesmo no sentido a que o F Barros se referiu, se o cidadão comum não for o dono e senhor da sua realidade e partilhá-la livremente em comunidade. O que se passa hoje é que a elite, do alto do seu palanque, diz ao cidadão qual deve ser a sua [deste] realidade e impõe o estereotipo da realidade racionalizado por ela [pela elite] ― não só nas “engenharias sociais” [que são uma forma reconvertida, travestida e mais sofisticada da velha opressão ideológica marxista sobre o indivíduo] como em praticamente todas as áreas da actividade da sociedade.

Depois da queda do formidável Estado marxista e opressor, temos desta vez a ameaça crescente do Estado-providência que, através da infantilização do cidadão e da sua irresponsabilização, trabalha para um novo tipo de opressão estatista ainda mais sofisticado através da criação de dependências múltiplas em relação ao super-estado e a vários níveis, sejam elas psicológicas, económicas, culturais, ou outras.

À medida em que o cidadão se vai deixando cair na rede das múltiplas dependências de um Estado que cresce em poder [seja o nosso, seja o de Bruxelas], vai paulatinamente perdendo a sua liberdade.

A maior ameaça ao crescimento desse super-estado que pretende infantilizar e desresponsabilizar o cidadão para lhe tomar a liberdade, tendo como objectivo transformá-lo numa marioneta, é a afirmação pública e permanente do senso-comum inerente à realidade e à experiência humanas por parte de cada cidadão, e compartilhar essas experiências e realidades individuais com toda a comunidade. E é isto que é a democracia directa: a liberdade que não prejudica o operário mas incomoda os novos aprendizes de ditador.

O défice democrático da democracia representativa

Friday, November 27th, 2009

A situação a que assistimos hoje ― a de um país em tribunal, literalmente ― com a corrupção que campeia a todos os níveis, seria concerteza menos grave se vivessemos em uma cultura de democracia directa, não só dentro dos partidos políticos como num ambiente político que encarasse o referendo com naturalidade. Isto significa que a democracia representativa entendida no sentido da discrecionariedade da vontade do corpo político eleito segundo os princípios da “vontade geral” de Rousseau, essa democracia representativa não só está moribunda como está a conduzir a nossa sociedade para o prenúncio de um novo tipo de totalitarismo.

Não é possível uma meritocracia sem a democracia directa praticada dentro dos partidos políticos e com o recurso ao referendo em questões que dividam a sociedade. E estas questões podem ser tão simples como a que existe agora na Suíça, em que se leva a efeito um referendo que pretende saber se o povo aprova a construção de minaretes islâmicos por todo o país. Coisas aparentemente tão simples como esta podem e devem ser sujeitas a referendo.

O preconceito da nossa classe política em relação ao referendo está directamente ligado ao preconceito salazarista do “povo que é ignorante e deve continuar a sê-lo”, e à ideia segundo a qual quanto mais ignorante é povo mais esclarecida é a classe política ― estabelecendo uma relação de causa-efeito entre as duas realidades.

Partindo do princípio preconceituoso da ignorância, da inépcia e do défice de juízo por parte do povo, a classe política ― o “corpo político” segundo Rousseau ― da democracia representativa serve-se de uma pretensa legitimidade do voto do povo para, muitas vezes, transformar esse voto em uma licença para contrariar os anseios mais profundos da maioria que votou.

A crise do Humanismo

Monday, July 13th, 2009

Desde 1987, tivemos os seguintes primeiros-ministros: Cavaco Silva (economista), António Guterres (engenheiro), Durão Barroso (lic. em Direito, PM por um ano e “fugiu” para Bruxelas), Santana Lopes (o dos “violinos de Chopin” e por seis meses) e José Sócrates (o engenheiro “domingueiro”). Portanto, desde 1987, pelo menos, que a área de humanísticas tem sido abandonada nas nossas universidades e liceus (ou escolas secundárias, como se chamam agora), não porque esse abandono seja propositado, mas porque um PM, como chefe de governo, define as prioridades das políticas a seguir e entre elas as políticas da educação. Depois de José Sócrates, perfila-se a probabilidade de virmos a ter como PM a Prof. Drª. Manuela Ferreira Leite (economista). Portanto, a saga do abandono das humanísticas continuará.

O abandono das humanísticas na educação e no ensino serve exclusivamente a esquerda mais radical. A avaliação ética e estética passa a ser feita exclusivamente em função de critérios políticos, e já não em termos de julgamentos em termos da definição do belo e dos chamados “universais humanos”. Os curricula passaram a ser olhados em termos ideológicos, e por exemplo a História de Portugal e da Europa passam a ser vistos como uma compilação de feitos de homens brancos já mortos e dignos de uma lição sobre patologia social.

Os “universais humanos”, que através da educação passavam de geração em geração, o estudo da literatura e das artes que formavam o cidadão na simpatia com a vida em todas as suas formas, foram substituídos pela obrigatoriedade do não-julgamento ético e estético. O ensino sempre foi um ritual de passagem da adolescência para a idade adulta; porém, o abandono das humanísticas transformou a adolescência no ritual de passagem dela para si mesma ― a adolescência passou a ser o objecto desse ritual de passagem, que tem como fim último e único a identidade de grupo. Qualquer crítica aos modelos éticos e estéticos desses grupos passa a ser ofensiva ― passou a ser proibido o exercício da crítica. Ora, isto tornou o julgamento totalmente impossível, e a extrapolação deste critério acrítico a todas as actividades sociais é uma das razões da chamada “crise de valores” a que assistimos hoje.

A essência das humanísticas é o exercício crítico. A recusa do exercício e do julgamento críticos muda a essência das humanísticas e com ela muda a própria ideia de universidade. Quando o juízo crítico é marginalizado ou proibido, não resta nada senão a política. A única forma de combater os actuais fenómenos de radicalismo na política, e de permitir a restauração de alguns valores éticos essenciais à vida social e económica, é o retorno ao ensino sistemático e valorizado das humanísticas nas escolas secundárias e nas universidades.

O valor do “sagrado”

Wednesday, June 10th, 2009

Em todas as sociedades existe o sagrado e o profano que funcionam em binómio. Ao contrário do que comummente se julga, este binómio não está só intimamente ligado às religiões propriamente ditas, mas também à religiosidade humana em termos gerais entendida tanto do ponto de vista subjectivo como na relação que essa subjectividade tem com a realidade objectiva [concreta]. Neste sentido, todo o ser humano ― em qualquer época ― desenvolve o seu “sagrado por si mesmo”, que é subjectivo; mas esta subjectividade não está nem pode estar desligada da realidade concreta que sustém a cultura de uma sociedade.

Quando uma sociedade se atomiza ― isto é, quando a sociedade se subdivide de tal forma que as comunidades da sociedade civil deixam de fazer sentido e a unidade sócio-cultural passa a ser exclusivamente constituída pelo “indivíduo face ao Estado” ―, a noção de sagrado e profano passa a ser praticamente entendida em termos subjectivos e sem nenhuma conexão com a realidade concreta que constitui a sociedade e a cultura. Numa sociedade atomizada, instala-se invariavelmente a crise de valores com consequência na economia e em todos os outros ramos da actividade humana. Uma coisa é não existir um consenso sócio-cultural unanimista acerca do que é sagrado e do que é profano; outra coisa é verificar-se que este binómio se dissocia da intersubjectividade necessária à harmonia e desenvolvimento de qualquer sociedade.

Numa sociedade saudável, existe uma tensão entre aquilo que é sagrado ― e que por isso merece o respeito em termos maioritariamente consensuais ― e aquilo que é profano ― que é objecto do desejo de posse. Esta tensão é objecto de consenso alargado na sociedade, isto é, existe um consenso cultural mínimo [denominador comum] entre o sagrado subjectivo e o sagrado cultural e objectivo. Por exemplo, o tabu apareceu como uma forma arcaica do sagrado; sem o tabu, as sociedades primitivas não se poderiam organizar e desenvolver. O tabu regula exactamente essa tensão entre aquilo que merece respeito geral na sociedade [sagrado] e que merece um consenso geral, e aquilo que pode e deve ser objecto de desejo de posse [profano].

Uma das características do sagrado é que se constrói essencialmente a partir do indivíduo para o grupo [de baixo para cima] e não pode ser imposto ideologicamente do topo da sociedade para o indivíduo [de cima para baixo]. Quando o “sagrado cultural colectivo” ― entendido como súmula do conjunto das religiosidades individuais e subjectivas ― se pulveriza e se reduz praticamente à sua dimensão individual e sem uma ligação concreta com o consenso cultural geral, assistimos a uma atomização da sociedade. Esta atomização é imposta pelas ideologias [de cima para baixo] que não respeitam o ser humano na sua dimensão subjectiva, isto é, é impossível que uma ideologia que conduz uma sociedade para um totalitarismo consiga o seu desiderato sem uma atomização prévia da sociedade; assim aconteceu com os totalitarismos ideológicos [nazismo, fascismo, marxismo] na Europa do século XX.

Tudo aquilo que se constituía consensualmente como sendo sagrado na nossa sociedade tem vindo a ser desmantelado pelas ideologias para-totalitárias, sem a oferta de um combustível moral alternativo. Está em curso, de facto, a atomização da nossa sociedade, em que o sagrado passa a fazer parte exclusiva e hermeticamente fechada da subjectividade religiosa de cada ser humano e não se extrapola para o grupo de forma a moldar o “sagrado cultural colectivo”, porque as ideologias [politicamente correcto] não permitem a expressão da religiosidade individual e subjectiva e a sua natural extrapolação para o grupo.

Antes da economia, das finanças e da política, a crise actual foi causada pela atomização da sociedade ocidental. Hoje, o que é sagrado e profano torna-se num “segredo” trancado a sete chaves em cada ser humano entendido na sua subjectividade. Hoje, o tabu cultural é a própria expressão individual e colectiva do sagrado. Estes são os sinais óbvios e evidentes de que caminhamos para um sistema político totalitário.