A crise do Humanismo
Monday, July 13th, 2009
Desde 1987, tivemos os seguintes primeiros-ministros: Cavaco Silva (economista), António Guterres (engenheiro), Durão Barroso (lic. em Direito, PM por um ano e “fugiu” para Bruxelas), Santana Lopes (o dos “violinos de Chopin” e por seis meses) e José Sócrates (o engenheiro “domingueiro”). Portanto, desde 1987, pelo menos, que a área de humanísticas tem sido abandonada nas nossas universidades e liceus (ou escolas secundárias, como se chamam agora), não porque esse abandono seja propositado, mas porque um PM, como chefe de governo, define as prioridades das políticas a seguir e entre elas as políticas da educação. Depois de José Sócrates, perfila-se a probabilidade de virmos a ter como PM a Prof. Drª. Manuela Ferreira Leite (economista). Portanto, a saga do abandono das humanísticas continuará.
O abandono das humanísticas na educação e no ensino serve exclusivamente a esquerda mais radical. A avaliação ética e estética passa a ser feita exclusivamente em função de critérios políticos, e já não em termos de julgamentos em termos da definição do belo e dos chamados “universais humanos”. Os curricula passaram a ser olhados em termos ideológicos, e por exemplo a História de Portugal e da Europa passam a ser vistos como uma compilação de feitos de homens brancos já mortos e dignos de uma lição sobre patologia social.
Os “universais humanos”, que através da educação passavam de geração em geração, o estudo da literatura e das artes que formavam o cidadão na simpatia com a vida em todas as suas formas, foram substituídos pela obrigatoriedade do não-julgamento ético e estético. O ensino sempre foi um ritual de passagem da adolescência para a idade adulta; porém, o abandono das humanísticas transformou a adolescência no ritual de passagem dela para si mesma ― a adolescência passou a ser o objecto desse ritual de passagem, que tem como fim último e único a identidade de grupo. Qualquer crítica aos modelos éticos e estéticos desses grupos passa a ser ofensiva ― passou a ser proibido o exercício da crítica. Ora, isto tornou o julgamento totalmente impossível, e a extrapolação deste critério acrítico a todas as actividades sociais é uma das razões da chamada “crise de valores” a que assistimos hoje.
A essência das humanísticas é o exercício crítico. A recusa do exercício e do julgamento críticos muda a essência das humanísticas e com ela muda a própria ideia de universidade. Quando o juízo crítico é marginalizado ou proibido, não resta nada senão a política. A única forma de combater os actuais fenómenos de radicalismo na política, e de permitir a restauração de alguns valores éticos essenciais à vida social e económica, é o retorno ao ensino sistemático e valorizado das humanísticas nas escolas secundárias e nas universidades.
